Arquivo de Dezembro, 2007

14
Dez
07

O Rei Merceeiro

Sempre me intrigou o episódio em que Francisco I de França se referiu a D.Manuel como “O Rei Merceeiro” e como esse epíteto se espalhou e continua a aparecer regularmente.Na maior parte das referências que conheço de historiadores ingleses ou americanos, lá aparece o “Grocer King” antes de sequer  analisarem  bem o que lhe valeu o outro cognome , o de Venturoso.

Em francês , “épicerie”   quer dizer “mercearia” , mas acho que Francisco I queria dizer “Rei das Especiarias” , porque não me parece que no século XV o conceito de “mercearia” ou ” épicerie” tivesse muito a ver com que é hoje, e um “épicier” era aquele que lidava , negociava , especiarias. Que nessa altura tinham uma importância também muito distinta da que tem hoje o abastecimento mundial de cravinho ou pimenta.

Parece-me que o Rei de França tinha mais inveja que outra coisa , porque não era qualquer rei  que mandava rinocerontes ao Papa ou podia reclamar para si a suserania dos confins do mundo conhecido.As traduções e os mal entendidos linguísticos podem dar origem a visões negativas ou depreciativas , sem necessidade nenhuma. Gostava que os historiadores portugueses , quando se referissem ao “cognome internacional” de D.Manuel I usassem a forma mais fiel, parece-me a mim , tanto ao espírito como à letra do epíteto original, O Rei das Especiarias.

Pode perfeitamente ser que eu esteja enganado e que épicier em francês do séc XV se refira mesmo ao lojista , ao merceeiro , ao proprietário de uma loja de mercearias , e pode ser que no fim de contas Rei Merceeiro ou Rei das Especiarias vá dar ao mesmo.Não sei, acho estas pequenas questões interessantes.

.

Para quem quer refrescar a memória sobre o Merceeiro Venturoso e o seu reinado , está aqui:    http://www.rtp.pt/gdesport/index.php?article=58&visual=6

09
Dez
07

O Estado do Mar

Em Abril passado o DN incluiu um suplemento intitulado “Mar Nosso” , que eu só agora vi.Abre com um texto do deputado Pedro Quartim Graça , nome que eu vou registar porque nesse primeiro artigo ele identifica claramente os desafios , potencialidades , limitações e a importância para Portugal do Mar e de todas as actividades a ele ligadas . O deputado defende uma “estratégia nacional para o Mar” , coisa que tarda 30 anos , mas mais vale tarde que nunca. Toda a gente ligada ao meio conhece os problemas com que se depara o desenvolvimento da Náutica no nosso país, que vão desde falta de portos naturais e áreas  propícias à vela de cruzeiro até à teia burocrática que envolve tudo.

Historicamente quer-me parecer que “Portugal país de Marinheiros” é difícil de justificar se tivermos em conta os números totais da população e a dificuldade constante e quase invariável em encontrar tripulações suficiente e adequadas para as frotas. Hoje em dia o problema dos recursos humanos é diferente e relaciona-se mais directamente com o mercado, que naturalmente partilha características do país: pequeno , pobre, sobre regulado , avesso ao risco , conservador , limitado e desorganizado . Sobretudo desorganizado, porque muitas vezes confunde-se coordenar com complicar e multiplicar os processos. Nunca fez sentido para mim o ministro das Pescas ser o mesmo que o da Agricultura , não concebo como é que isto não só faz sentido para muita gente como é assim há uns 30 anos. Só há pouco tempo se criou uma Secretaria de Estado para o Mar , é uma clara demonstração da noção que os políticos contemporâneos têm da importância do Mar.

Mas não faltam pessoas nem vontades e o potencial nacional é extraordinário , passando por coisas como a naturalidade da instalação da Agência Europeia da Segurança Marítima Europeia em Lisboa  . Como interessados no Mar , profissionais ou amadores , não podemos  estar à espera do governo para resolver os problemas ou dinamizar o sector, porque se levou 30 anos a perceber a importância de uma entidade governativa autónoma para os assuntos do Mar, pode demorar 10 para que alguma coisa aconteça…talvez tarde demais.

O resto do suplemento “Mar Nosso” é em parte ocupado por queixas contra as novas restrições na Arrábida e outros lamentos uns mais justificados que outros , mas o que é certo é que na maior parte das vezes as pessoas propunham soluções ou pelo menos mostravam vontade de se envolverem no processo. É isso que faz falta , sobretudo deixar de olhar para o umbigo e pensar no Mar em geral como uma causa maior.

Da minha parte, vou exercer os meus direitos de cidadão interessado e vou contactar o deputado Pedro Quartim Graça , que escreveu muito bem sobre o estado actual do Mar, e saber o que é que ele , que pode, faz ou tenciona fazer.

04
Dez
07

Descobrimentos – alguns apontamentos

O texto que abaixo se apresenta é retirado de um livro chamado “Os Descobrimentos e a Ordem do Saber”, da autoria de Luís Filipe Barreto e publicado pela editora Gradiva, na colecção Construir o Passado, em 1989.

Os extractos retirados pretendem apenas dar uma pequena ideia de alguns dos aspectos dos Descobrimentos. De um lado, as alterações ao nível da alimentação e dos consumos. Por outro lado, apresentar alguns factos que ilustram o que era uma viagem através do Oceano até à Índia.

“Os Descobrimentos promovem uma contaminação e circulação de produtos e técnicas com interesse alimentar que até aí eram propriedade exclusiva de determinados espaços isolados. Podemos observar este sistema de trocas ao nível das frutas com a deslocação da melancia, da abóbora, da banana, de África para o Brasil e do caju, do maracujá, etc, do Brasil para África. [...]
Os cereais universalizam-se também através dos Descobrimentos peninsulares, como acontece com o milho maíz, trazido da América para a Europa e, em seguida, para a Ásia e África. A cana-de-açucar e o café chegam aos Europeus através da civilização islâmica, mas, graças aos Portugueses, espalham-se pouco a pouco pelo mundo. [...]

Para além dos alimentos /bebidas, existe também toda uma nova ordem mundial do gosto, que leva, por exemplo, à rápida difusão do tabaco a partir dos finais do século XVI [...]

A atracção por novos cheiros e prazeres despoletada pelos Descobrimentos renacentistas não se reduz ao tabaco. O haxixe e o ópio entram também nos hábitos de alguns portugueses, como se vê nos Colóquios, de Garcia de Orta, que em 1563 nos informa da existência dum membro da alta nobreza, fidalgo “muito honrado”, completamente viciado no ópio. Por outro lado, [...], sabemos que o haxixe/bangue, realidade cujo comércio rende à cidade de Goa, nos anos de 1545-46, 1600 pardaos, é vulgarmente consumido pelos Portugueses.[...]

Um outro lugar fundamental das formas de comportamento e valor articulado com os Descobrimentos que, embora de um modo breve, gostaríamos de apontar prende-se com o universo da viagem transatlântica.

Um grande navio dos finais do século XVI, caso da nau, tem uma tripulação de cerca de 100 a 120 homens e transporta em média 300 a 400 soldados e 200 e 300 passageiros. Como vive esta população de largas centenas de homens numa viagem à Índia que dura uma média de cinco a sete meses?

Os navios para a Índia deixam Lisboa, na sua esmagadora maioria, em Março ou Abril.[...] A organização das viagens, essencialmente da competência estatal, pressupõe toda uma máquina administrativa encarregue da construção e manutenção dos navios (a média de duração dos navios na carreira da Índia é de 10 anos, isto é, de 3 a 4 viagens), bem como do recrutamento e do abastecimento necessários aos mesmos.[...]

Em meados do século XVI, o porto de Lisboa tem empregados nos estaleiros, a Ribeira das Naus, cerca de meio milhar de pessoas (300 carpinteiros, 50 calafates, 50 pessoas a cortar madeira). Outros 300 trabalhadores ocupam-se do movimento de carga e descarga no porto, enquanto cerca de duas centenas de funcionários zelam pela Alfândega/Casa da Índia.

Números, sem dúvida significativos, pois colocam cerca de 1000 pessoas na tarefa imediata de preparação das viagens transoceânicas numa cidade macrocéfala com 100 000 habitantes e, no mínimo, com 150 000 portugueses espalhados pelo mundo numa população nacional que se estima à volta de 1 300 000. [...]

A vida a bordo é dura, [...] devido às próprias condições de navegação [...] e às características dos navios que estão construídos, essencialmente, para transporte de carga, o que obriga os passageiros a viverem e a dormirem no convés ou nas cobertas.

A alimentação a bordo é quase sempre uma aventura, com alimentos insuficientes e frequentemente estragados. [...] A alimentação para além do célebre biscoito baseia-se em carne salgada e no peixe pescado ao longo da viagem. [...]. As condições de higiene que presidem à existência a bordo retratam as normas da época com mais algumas precauções complementares;[...]

À fraqueza geral da saúde corresponde uma elementar protecção clínica, pois, na sua esmagadora maioria, os navios apenas transportam uma pequena botica com produtos farmacêuticos e um barbeiro com experiência de sangrias, pelo que os padres que aparecem nos regimentos de bordo como “médicos da alma” se tornam , frequetemente, também médicos do corpo. [...]

O mundo da viagem manifesta também uma forte presença da religiosidade e todo o viajante se confessa antes de iniciar a viagem. A bordo, o capelão celebra missa todos os sábados, domingos, dias santos e de festa, mas o próprio sentido do quotidiano, momento a momento, está cheio de manifestações religiosas, pois ao nascer do dia reza-se uma oração e à noite um padre-nosso e uma avé-maria[...]




Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.