04
Dez
07

Descobrimentos – alguns apontamentos

O texto que abaixo se apresenta é retirado de um livro chamado “Os Descobrimentos e a Ordem do Saber”, da autoria de Luís Filipe Barreto e publicado pela editora Gradiva, na colecção Construir o Passado, em 1989.

Os extractos retirados pretendem apenas dar uma pequena ideia de alguns dos aspectos dos Descobrimentos. De um lado, as alterações ao nível da alimentação e dos consumos. Por outro lado, apresentar alguns factos que ilustram o que era uma viagem através do Oceano até à Índia.

“Os Descobrimentos promovem uma contaminação e circulação de produtos e técnicas com interesse alimentar que até aí eram propriedade exclusiva de determinados espaços isolados. Podemos observar este sistema de trocas ao nível das frutas com a deslocação da melancia, da abóbora, da banana, de África para o Brasil e do caju, do maracujá, etc, do Brasil para África. [...]
Os cereais universalizam-se também através dos Descobrimentos peninsulares, como acontece com o milho maíz, trazido da América para a Europa e, em seguida, para a Ásia e África. A cana-de-açucar e o café chegam aos Europeus através da civilização islâmica, mas, graças aos Portugueses, espalham-se pouco a pouco pelo mundo. [...]

Para além dos alimentos /bebidas, existe também toda uma nova ordem mundial do gosto, que leva, por exemplo, à rápida difusão do tabaco a partir dos finais do século XVI [...]

A atracção por novos cheiros e prazeres despoletada pelos Descobrimentos renacentistas não se reduz ao tabaco. O haxixe e o ópio entram também nos hábitos de alguns portugueses, como se vê nos Colóquios, de Garcia de Orta, que em 1563 nos informa da existência dum membro da alta nobreza, fidalgo “muito honrado”, completamente viciado no ópio. Por outro lado, [...], sabemos que o haxixe/bangue, realidade cujo comércio rende à cidade de Goa, nos anos de 1545-46, 1600 pardaos, é vulgarmente consumido pelos Portugueses.[...]

Um outro lugar fundamental das formas de comportamento e valor articulado com os Descobrimentos que, embora de um modo breve, gostaríamos de apontar prende-se com o universo da viagem transatlântica.

Um grande navio dos finais do século XVI, caso da nau, tem uma tripulação de cerca de 100 a 120 homens e transporta em média 300 a 400 soldados e 200 e 300 passageiros. Como vive esta população de largas centenas de homens numa viagem à Índia que dura uma média de cinco a sete meses?

Os navios para a Índia deixam Lisboa, na sua esmagadora maioria, em Março ou Abril.[...] A organização das viagens, essencialmente da competência estatal, pressupõe toda uma máquina administrativa encarregue da construção e manutenção dos navios (a média de duração dos navios na carreira da Índia é de 10 anos, isto é, de 3 a 4 viagens), bem como do recrutamento e do abastecimento necessários aos mesmos.[...]

Em meados do século XVI, o porto de Lisboa tem empregados nos estaleiros, a Ribeira das Naus, cerca de meio milhar de pessoas (300 carpinteiros, 50 calafates, 50 pessoas a cortar madeira). Outros 300 trabalhadores ocupam-se do movimento de carga e descarga no porto, enquanto cerca de duas centenas de funcionários zelam pela Alfândega/Casa da Índia.

Números, sem dúvida significativos, pois colocam cerca de 1000 pessoas na tarefa imediata de preparação das viagens transoceânicas numa cidade macrocéfala com 100 000 habitantes e, no mínimo, com 150 000 portugueses espalhados pelo mundo numa população nacional que se estima à volta de 1 300 000. [...]

A vida a bordo é dura, [...] devido às próprias condições de navegação [...] e às características dos navios que estão construídos, essencialmente, para transporte de carga, o que obriga os passageiros a viverem e a dormirem no convés ou nas cobertas.

A alimentação a bordo é quase sempre uma aventura, com alimentos insuficientes e frequentemente estragados. [...] A alimentação para além do célebre biscoito baseia-se em carne salgada e no peixe pescado ao longo da viagem. [...]. As condições de higiene que presidem à existência a bordo retratam as normas da época com mais algumas precauções complementares;[...]

À fraqueza geral da saúde corresponde uma elementar protecção clínica, pois, na sua esmagadora maioria, os navios apenas transportam uma pequena botica com produtos farmacêuticos e um barbeiro com experiência de sangrias, pelo que os padres que aparecem nos regimentos de bordo como “médicos da alma” se tornam , frequetemente, também médicos do corpo. [...]

O mundo da viagem manifesta também uma forte presença da religiosidade e todo o viajante se confessa antes de iniciar a viagem. A bordo, o capelão celebra missa todos os sábados, domingos, dias santos e de festa, mas o próprio sentido do quotidiano, momento a momento, está cheio de manifestações religiosas, pois ao nascer do dia reza-se uma oração e à noite um padre-nosso e uma avé-maria[...]


0 Respostas to “Descobrimentos – alguns apontamentos”



  1. Deixe um Comentário

Deixar uma resposta

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s


Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.